Mulheres, masturbem-se!

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Masturbação! Essa palavra por si já é tabu, mas, vindo acompanhada do adjetivo “feminina”, pesa ainda mais e parece que não é coisa de mulher direita, certo? Afinal, como você verá neste artigo, a masturbação feminina, que basicamente se inicia e termina em um órgão maravilhoso chamado clitóris, foi demonizada pela estrutura cristã, solapada pela ciência machista que ainda nos cerca e, até hoje, pasme, em pleno 2016, ela fica sonegada por trás de denominações como “bela, recatada e do lar”. Recatada vem de recato que, por sua vez, significa abstinência, reserva, melindre. Opa, como assim reserva? Por que devemos nos reversar de nossos próprios corpos e sensações? É porque nesta sociedade patriarcal, em que o feminino tem o papel social de apenas servir, uma mulher tendo prazer, ainda mais sozinha, é um absurdo. O que quero te contar, moça, é que todo o complexo da vulva é o seu centro de poder energético, um local gerador de prazer e de percepção das sensações do mundo que lhe integra ao meio, e isso é muito poderoso. Precisamos falar sobre isso!

Não importa a sua idade, religião ou condição econômica, nós vamos deixar o recato lá fora e falar sobre algo de extrema importância para todas: a masturbação feminina. Ei, não fique com vergonha não, nem se sinta culpada por ler esse texto. Se chegou até aqui, é porque, no fundo, você sabe que merece ser feliz, descobrir-se e conhecer-se. Sei que já leu por aí que a maioria de nós é “frígida mesmo” e nunca gozou. Mas, vem cá, só porque a maioria embarcou nesse balão você vai junto? Não, vá não! Sim, muitas de nós não gozam, porém não por problemas fisiológicos, mas por consequência de um sistema de crenças moralista e hipócrita no qual fomos educadas. Diante disso, estou te convidando a rever essas estruturas domesticadoras de seu corpo e comportamento, que te incapacitam de ter domínio sobre si mesma. Trago hoje e nas próximas duas semanas, na Trilogia do Clitóris (que se seguirá aqui na Vertigem), sobre o encantador universo do prazer feminino, dados científicos e históricos para você entender que, sim, merece e deve ter prazer, seja sozinha ou com um parceiro/a, não importando se tem 18 ou 70 anos.

E mulher tem prazer?

Sim, mulher tem prazer, e esse assunto ainda é polêmica, e não ficarei admirada com comentários negativos que este artigo venha a receber. Mulheres têm desejos, orgasmos, conseguindo alcançá-los de forma saudável, o que ocorre é a não permissão deles. Daí, a que ousa tocar-se pode passar a pensar: “Será que tenho problemas ou sou uma vadia, uma desavergonhada?” Não! Não há nada de errado com você. Só há erro quando alguém tenta te tocar sem o seu consentimento ou de forma forçada. A única pessoa que tem o direito de tocar no seu corpo é você mesma. Os outros só podem participar do seu prazer se você quiser, tiver vontade e achar legal, fora isso, tudo é seu. Sei que disseram para você que não era, afinal, o corpo de uma mulher é quase um bem público nessa sociedade, certo? Errado! O corpo é seu, o prazer é seu, o clitóris, os seios, tudo é seu, basta você descobrir esse rastro, apoderar-se e entenderá que desvendá-lo é prazeroso e saudável.

Mas, afinal, por que mulher ter prazer incomoda tanto? Em uma sociedade desenvolvida em moldes patriarcais, mulher não precisa e não pode ter prazer, importando apenas se ela dá prazer ao homem e procria. Se ela tenta experenciar prazer, é culpada, vadia. Queimem a bruxa! Como historiadora, fico sempre pensando em quantas mulheres foram queimadas, julgadas e mortas por terem demonstrado domínio sobre as sensações de seus corpos.

Se você jogar o termo “masturbação feminina” no Google, irá descobrir que a maioria dos textos relacionados ao tema circula em torno de material pornográfico para o público masculino, e não em informações sobre bem-estar e satisfação para as mulheres. Os que se prestam a esse papel recebem grande carga negativa de comentários, atestando que a masturbação feminina, quando aceita, é apenas como mais um apetrecho pornográfico para os machos, e não uma ação para a satisfação íntima e saúde da mulher.

Mas não é feio mulher ter prazer?

Muitas mulheres me contam que não se masturbam porque vivenciam culpa, porque é feio, sentem-se envergonhadas ou não acham importante, já que têm um companheiro, mesmo não tendo relações satisfatórias. Algumas já chegaram a me relatar que não conseguem masturbar-se pois têm a real sensação de que estão sendo observadas por seres do além. Ou seja, uma sensação construída culturalmente, por doutrinas religiosas, muito típica de expiação por seres superiores onipresentes que vêm “purgar pecados”. Medo, culpa, vergonha, sensações e emoções explicitamente culturais, evocadas para inferiorizar a pessoa, diminui-la e designar que ela não tem controle sobre si mesma. E quem tem? A Igreja? Uma instituição? Um sistema patriarcal? Quem controla o seu corpo?

O sistema opressor e moralista vigente na sociedade como um todo, originário da mentalidade patriarcal e mantido por suas instituições, tiraniza e apodera-se do corpo feminino, além de distanciá-lo do controle da própria mulher. Por isso, muitas de nós ainda não conseguem compreender a vagina e, principalmente, o clitóris como um centro belo, intuitivo e sagrado de autopercepção e empoderamento. De várias formas, fomos distanciadas de nossas vaginas e clitóris, ora por discursos higienistas vindos da ciência, ora por dogmas religiosos que determinam que tudo que vem do prazer da mulher é sujo, inferior e demoníaco, tendo de ser escondido, domesticado e oprimido, e é dessas concepções que nossa educação cotidiana é formada, como já escrevi aqui, no texto “Cheiro de buceta”: meninas não podem se tocar, é feio, mas meninos crescem acreditando que seus pintos são reis, que são perfeitos, que o falo é a coisa mais importante da vida e que vaginas servem, apenas, para recebê-los. Meninas crescem tendo suas vaginas tapadas, escondidas, sem permissão para tocá-las e aprendem que devem limpar muito bem, porque ela é suja.

Uma estrutura que domestica o corpo da mulher só o faz porque reconhece o poder que ele (o corpo da mulher) capacita a ela (a mulher) quando a mesma sabe decodificar suas sensorialidades e reconhecer seus poderes. Seriam poderes mágicos? Não, mas quase! É o poder de saber sentir cada parte do prazer em si mesma, que, por sua vez, abre o caminho para o autoconhecimento, autocontrole e autonomia. Estou falando que uma mulher se ilumina tocando siririca? Lógico que não! Estou salientando que a consciência de suas próprias sensações (entre elas, a erógena) a capacita a ter poder sobre si mesma, suas decisões e escolhas. No entanto, sabemos que as instituições dominantes não desejam pessoas autossuficientes ou emancipadas, pois estas dificilmente serão manipuladas. Quando você reconhece sua força e poder e os toma para si, dificulta a capacidade de dominação desses sistemas, e é por isso que mulheres que se masturbam ou experimentam prazer sobre o próprio corpo causam tanto pavor na estrutura vigente. Autoestimular a região erógena é uma forma de possibilitar autovalor, bem-estar e saúde. Que perigo representam mulheres empoderadas, não?

Sobre isso, você pode pensar: “Mas homens têm total liberdade sexual e não sentem-se empoderados. Muitas vezes, inclusive, apresentam problemas de autoestima.’’ Acontece que eles também sofrem com o sistema patriarcal, e essa tal liberdade sexual masculina é falsa, já que homens são ensinados a dominar o outro sexo, e não a amá-lo e a sentir prazer em conjunto, muito menos amar a si próprios. Aprendem a se viciar em filmes pornográficos, e não a estar presentes em uma relação real de igual para igual com a parceira. São adestrados para terem repúdio de certas zonas erógenas do próprio corpo, concepções essas fomentadas pela heteronormatividade e homofobia e, por isso, vivem a desconhecer seus corpos tanto quanto as mulheres. Mesmo assim, homens possuem maior liberdade sexual que nós, e ainda dizem por aí que temos inveja do falo, que tudo o que queríamos era ter um pênis.

O clitóris apresenta em média 8.000 feixes de fibras nervosas, enquanto no pênis esse número varia de 4 a 6 mil. Nosso órgão feminino tem mais terminações do que a língua, por exemplo, e, além disso, toda essa potencialidade está comprimida em uma pequena extensão espacial (vou contar sobre as competências do clitóris nas próximas semanas). Se o pênis é um bom perfume, o clitóris é ótimo. Sabe aquela história dos melhores perfumes virem nos menores frascos?

Será que eu consigo?

Para a psicóloga Ellen Laan, da Universidade de Amsterdão, não existe mulher que não tenha orgasmos se ela é saudável fisiologicamente. Uma mulher ser frígida ou esse fato ser considerado normal é uma falácia social. Para ela, o que existe são mulheres que precisam se conhecer, através da masturbação, para ter domínio do próprio corpo e saber proporcionar-se orgasmos, bem-estar e saúde (veremos que a masturbação previne várias doenças). Isso propiciará não só um autoprazer, como também melhorará o empenho em relações com parceiros/as. Então, comece a se tocar, inicie com calma, use um espelho para falar “olá, muito prazer!’” (há muitas mulheres que nunca olharam a própria vagina), visualize, permita-se, dê esse tempo para você, não há nada de errado nisso! Pelo contrário, estou lhe assegurando que o corpo é seu e que não há nada de vergonhoso em tocar o seu clitóris, é um órgão com 8 mil terminações nervosas que foram colocadas aí para seu prazer. Quero te contar que estrutura ou instituição alguma são donas desse lugar. O corpo é seu, e entendo que essa ideia possa até causar um pouco de medo, pois temos receio do que nos é desconhecido e, em nosso caso, estamos lutando para conhecermos a liberdade e a independência. Vá com medo mesmo! Comece. Se já começou, aprofunde-se, permita-se ter prazer, porque você é mulher e tem um órgão só para isso. Prazer é poder, e se tem uma coisa que mulher pode é poder!

 

Texto de Palmira Margarida in http://www.revistavertigem.com/artigo/mulheres-masturbem-se/

 

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3 comentários a “Mulheres, masturbem-se!”

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