O anel

Apontar o dedo

Quanto é que tu vales?

Há uns tempos este texto encontrou-me. Parecia mostrar-me uma lição inestimável. A lição de que todos somos únicos e valiosos e não nos podemos deixar levar por julgamentos de pessoas que nem da sua própria vida sabem e passam o tempo a opinar acerca do que somos e do que fazemos. Muita gente dá mais ouvidos aos outros do que à sua voz interior o que é errado e absurdo. A realidade é esta: nós desvalorizamo-nos e ficamos eternamente à espera que outros nos reconheçam e nos dêem valor. Aqui fica…

– Venho aqui, professor, porque me sinto triste, não tenho forças para fazer nada. Dizem-me que não sirvo para nada, que não faço nada bem, que sou um idiota. Como posso melhorar? O que posso fazer para que me valorizem mais?

O professor, sem olhá-lo, disse:

– Sinto muito meu jovem, mas não te posso ajudar, devo primeiro resolver o meu próprio problema. Talvez depois.

E fazendo uma pausa, falou:

– Se me ajudasses, eu poderia resolver este problema com mais rapidez e depois talvez te possa ajudar.

– Claro, professor – gaguejou o jovem que se sentiu outra vez desvalorizado e hesitou em ajudar seu professor. O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno e deu ao garoto e disse:

– Vai até ao mercado, tenho de vender este anel porque tenho que pagar uma dívida. Eu preciso que obtenhas pelo anel o máximo possível mas não aceites menos que uma moeda de ouro. Vai e volta com a moeda o mais rápido possível.

O anel

O jovem pegou no anel e partiu. Mal chegou ao mercado, começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, até ao momento em que o jovem dizia quanto pretendia pelo anel. Quando o jovem mencionava uma moeda de ouro, alguns riam, outros saíam sem ao menos olhar para ele, mas só um velhinho foi amável a ponto de explicar que uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um anel. Para tentar ajudar o jovem, chegaram a oferecer uma moeda de prata e uma xícara de cobre, mas o jovem seguia as instruções de não aceitar menos que uma moeda de ouro e recusava as ofertas.

Depois de oferecer a jóia a todos que passaram pelo mercado, abatido pelo fracasso voltou. O jovem desejou ter uma moeda de ouro para que ele mesmo pudesse comprar o anel, assim livrando a preocupação e o seu professor e assim podendo receber ajuda e conselhos. Entrou em casa e disse:

– Professor, sinto muito, mas é impossível conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2 ou 3 moedas de prata mas não acho que se possa enganar ninguém sobre o valor do anel.

– Importante o que disse, meu jovem, contestou sorridente o mestre. – Devemos saber primeiro o valor do anel. Volta e vai até ao joalheiro. Quem melhor para saber o valor exacto do anel? Diz que queres vendê-lo e pergunta quanto é que te dá por ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o vendas. Voltas depois aqui com o meu anel.

O jovem foi até ao joalheiro e deu-lhe o anel para examinar. O joalheiro examinou-o com uma lupa, pesou-o e disse:

– Diz ao teu professor que se ele quiser vender agora não posso dar mais que 58 moedas de ouro pelo anel.

O jovem, surpreso, exclamou:

– 58 MOEDAS DE OURO!

– Sim, replicou o joalheiro, eu sei que com tempo poderia oferecer cerca de 70 moedas, mas se a venda é urgente…

O jovem correu emocionado para a casa do professor para contar o que ocorreu.

– Senta-te, disse o professor, e depois de ouvir tudo que o jovem lhe contou, disse:

– Tu és como esse anel, uma jóia valiosa e única. E que só pode ser avaliada por um especialista. Pensavas que qualquer um podia descobrir o seu verdadeiro valor?

E dizendo isso voltou a colocar o anel no dedo.

– Todos somos como esta jóia. Valiosos e únicos e andamos pelos mercados da vida à espera que pessoas inexperientes nos valorizem.

Jorge Bucay, in “Deixa-me que te conte”

Deixa-me que te conte - Jorge Bucay

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