Noventa por cento

Mulher de bicicleta

O Sol estava já baixo, quase a pôr-se no fim da estrada, bem junto ao verde da pequena colina que fechava na curva. No azul alaranjado do céu, uma aragem corria tocando-me na face enquanto brincava com os meus cabelos, já meio soltos e transpirados. O silêncio absoluto do asfalto apenas era quebrado pelo ritmo do IPod que me acompanhava na viagem, dando-me as batidas que ritmavam a pedaleira. O suor escorria devagar e cadenciado pelas laterais do pescoço, morrendo na gola já manchada da t-shirt. A passagem pelo lago era a minha preferida, era como se naquele momento o mundo inteiro parasse imitando aquelas águas e dando-me uma sensação de calma e serenidade que eu já não sentia há séculos. Senti os músculos das pernas a puxar e levantei-me ligeiramente do cabedal do selim para impulsionar a última subida. Um pássaro resolvia agora competir nesta maratona, esvoaçando meio sem nexo por entre as folhas já primaveris das árvores. A curva estava cada vez mais próxima e a adrenalina começava a subir dentro de mim. Do outro lado estava a descida final, aquela em que solto os travões e sinto nos olhos o gosto pela aventura.

O vento faz-se agora sentir com maior intensidade no meu peito, enquanto os ténis imprimem uma pressão ainda maior sobre os pedais já gastos de muitos e muitos quilómetros de estrada. Nos últimos metros solto o volante e abro os braços como se fosse abraçar o mundo e aponto o nariz à Lua deixando-a guiar o meu destino. Com uma travagem suave finalmente paro. Desço do selim e encosto a bicicleta a uma árvore, a mesma que me acolhe há meses. Enquanto faço os alongamentos finais fecho os olhos e esqueço por uma última vez todos os papéis que deixei para trás, todos os telefonemas, todas as discussões e pressões que a vida me dá. O relaxamento final irei senti-lo no banho com todos os meus cremes e uma água quente e dirigida. A música termina e abro os olhos. Reparo que o silêncio à minha volta é agora quebrado por outros ciclistas de domingo que terminam agora, tal como eu, o seu treino. Enquanto me dirijo de forma pausada para o meu carro procuro com o olhar outras mulheres. Nem uma. É como se o exclusivo tivesse sido dado aos homens e aquele momento único de prazer e fuga fosse destinado apenas aquele grupo de calças de Lycra justas e camisola larga para não se ver a barriga que já não se consegue disfarçar.

Com o volante nas mãos viajo rápido para casa enquanto penso na minha solidão feminina pelos trilhos daquele vale. Começo a rever a minha semana e o meu dia a dia. Levanto-me mais cedo que todos. Antes mesmo de comer alguma coisa, ainda lavo o copo que ele usou a meio da noite e deixou molhado em cima da mesa da cozinha (a mancha tento tirá-la mais tarde). Como a correr e arranco para a casa de banho, tudo em silêncio não vão as crianças acordar. Visto-me e preparo o pequeno-almoço dos pequenos. Depois começa a aventura. Eles acordam e o ritual de tentar vestir duas crianças ensonadas atrapalha os meus minutos seguintes. Quando finalmente consigo tê-los sossegados e vestidos enfio-lhes qualquer coisa já previamente preparada boca abaixo e dou-lhes o arranjo final com uma lavagem de dentes. Enquanto lhes limpo a boca oiço da porta de casa a voz dele a perguntar porque demoramos tanto e que espera no carro. O meu dia é passado a correr, o trabalho aperta e pelo meio há que falar com a mãe, saber da irmã e ainda preocupar-me como estão os meninos. Os problemas acumulam-se e a vontade de explodir só é contida porque ele decide partilhar o seu último drama que vai acabar com o mundo mas que no final se resume a algo tão grave como uma unha lascada. Quando me preparo para desabafar com o que me atormenta ele despede-se de forma rápida porque tem uma reunião qualquer no escritório. Saí tão rápido que nem repara na minha cara e volta a centrar o mundo no seu umbigo.

Rapariga de bicicletaO final do dia é aterrador. A corrida para sair do escritório só arranja concorrência com a corrida para fugir ao trânsito. Apanho os miúdos no colégio, onde já só a empregada da limpeza lhes faz companhia. No caminho para casa os miúdos adormecem e faço o percurso entre a garagem e o apartamento com os dois ao colo e ainda com a mala e o saco do jantar nas mãos. Entro em casa e depois de colocar as compras na cozinha ponho os dois na banheira e preparo-me para a batalha naval. Os minutos seguintes dividem-se entre guerras de água e o jantar ao lume. Finalmente estão os dois no quarto vestidos e o jantar quase pronto. Finalmente ele chega, atrasou-se um pouco por ainda foi beber uma imperial com um amigo quando saiu do escritório. Estava Sol, diz ele, e além disso precisava de descontrair do tal problema que tinha. Jantamos em silêncio apenas interrompido para comentar uma qualquer noticia que é dada com maior volume no telejornal que ele teima em ouvir enquanto jantamos. O volume sobe ainda mais quando chega o desporto e na notícia do Benfica nem um garfo se ouve. Terminado o jantar arranca para a sala deixando os pratos exactamente onde estavam, enquanto eu ponho os miúdos na cama. Já estoirada tento terminar um relatório que deixei a meio para conseguir estar no colégio a horas. Quando finalmente termino vou até ao quarto para lhe contar o meu dia. Já dorme.

Este seria efectivamente o meu dia senão fosse a bicicleta. Aqueles pequenos pedais fazem-me sair de casa e pedalar, resolver comigo própria os problemas e a partilha tornou-se uma realidade. O desporto é o meu amante, confidente e protector. Poderia enumerar uma centena de vantagens físicas, melhora as coxas, torneia as pernas, aperfeiçoa a barriga e tonifica-me a alma, mas acima de tudo isso liberta-me. É hoje um dado adquirido que existem mais mulheres na universidade que homens, há mais licenciadas, há mais mulheres quadros que há cinco anos atrás e há mais mães que pais. Apenas na estrada vemos mais homens. A arte de pedalar é algo elegante e empolgante, como um bailado entre a atleta e a bicicleta em movimentos anatómicos perfeitos e bastante agradáveis ao espectador (em especial quando o corpo se eleva do selim para forçar o andamento ou suportar uma subida, colocando todo o corpo numa posição bonita de se ver) pelo que a graciosidade inerente ao feminino assenta na perfeição nesta combinação de arte, engenho e raça desportiva.

Talvez por isso fiquemos perplexas quando olhamos para a estrada e o que vemos em cima das ditas máquinas pedaleiras são Homens! Vou a um ginásio e vejo o que? Mulheres! Olho para todas as casas que conheço e onde existe uma bicicleta ao estilo “ginásio” e quem é que a usa? As mulheres! Olho para a forma do selim e para a posição ideal do ciclismo e em quem é que penso? Nas mulheres. Vou para a rua e quem é que vejo em cima das rodas finas a acelerar pelo asfalto? Homens! Volta a Portugal? Homens! Volta ao Alentejo? Homens! Volta ao Algarve? Homens! Especial Chiado / Príncipe Real? Bom, nesta última não são bem homens.

A conclusão? Noventa por cento das minhas amigas usam a expressão “prazer” quando lhes peço para definirem este desporto. “Liberdade” e “velocidade” são outras expressões muito apreciadas e vividas intensamente quando se foge de tudo e de todos para aquele lugar sagrado no final do parque. Perante os factos só me resta explicá-los com números, mais que perceber o “porque” vou antes dizer o “quem”: noventa por cento dos homens que praticam bicicleta nos jardins e estradas são casados, noventa por cento das mulheres que o faz são independentes.

lady_in_bike

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