O Desapego – A Arte de ser Livre, Feliz e Pleno

Desapego

Uma grande maioria das pessoas carregam consigo uma característica ou um padrão de comportamento que na maior parte das vezes prejudica a sua vida, quer em termos físicos, saúde mental e/ou relacionamentos. O apego por coisas materiais e até espirituais, ideias, pessoas ou situações, o apego ao passado, são alguns exemplos que poderei citar. O apego é quase como uma cola, que cola as pessoas ao superficial, à família, aos filhos, aos pensamentos, ao passado, etc. Podemos até dizer que apego nos mantém prisioneiros da vida, tornando-a bastante pesada. O apego ao passado é, na minha opinião, juntamente com o apego às pessoas e o apego aos objectos, a forma mais habitual de apego. O apego ao passado prende-nos a situações, quer felizes ou infelizes, boas ou más, extraordinárias ou desastrosas, e impede-nos de avançar.

Na maior parte das vezes a sensação de apego não é consciente. Estar preso a uma forma de pensar, aos hábitos, aos objectos, é um grande passo para viver uma vida infeliz, mesmo sem se saber porquê. Estar apegado a algo é estar na nossa zona de conforto, com as nossas posses. É valorizar mais o Ter do que o Ser. E afinal de contas o Ser é somente tudo aquilo que nós temos. É preciso entender, ou melhor, descobrir, que no fundo tudo aquilo a que nos apegamos é algo que nos dá uma efémera sensação de prazer. Nada aqui nesta vida e neste mundo nos pertence, nem o amor, nem a riqueza nem mesmo o nosso corpo e simplesmente tudo existe para nosso usufruto.

E o que é que podemos fazer em relação a isto? A forma mais sensata de se agir, por mais difícil que seja, é estar sempre pronto para aceitar qualquer coisa que ocorra de diferente na nossa vida. Sair da nossa zona de conforto é livrar-nos do apego e da perda desnecessária de energia, a qual precisamos para outras coisas mais importantes. O desemprego, mudança de trabalho, divórcio, o fim de um namoro e até mesmo a morte, são situações que nos empurram para fora da nossa zona de conforto, colocando-nos na linha da frente das tropas, na luta com o desconhecido. Embora originem muitas cicatrizes e feridas, é necessário descobrir alguma maneira de defrontarmos as desilusões e seguirmos em frente. Afinal de contas a desilusão é uma coisa boa… Quem é que gosta de andar iludido? A ilusão pode causar uma sensação de prazer mas de curta duração. Quanto mais desiludidos andamos, melhor. Mais conscientes estamos. Mais presentes e atentos andamos. E aí sim, sentimo-nos vivos. Emprega-se mal a palavra desilusão, assim como outras palavras na nossa linguagem. As pessoas adoram andar iludidas quando pretendem fugir da dor da sua realidade. Quando alguém nos desilude, devemos ficar gratos, pois ficámos a conhecer a verdadeira essência do outro. A ilusão e o apego andam sempre de mãos dadas, supervisionadas pelo Ego. A ilusão de que alguém de quem nós gostamos será sempre nosso amigo porque nós queremos estar sempre junto dele é ridícula. O verdadeiro Amor é a arte de deixar ir. De libertar. E isso já é o desapego.

Um Coração leve vive longamente. – Ditado islandês

O desapego é o único remédio eficiente para o medo de perder, que está na origem de toda neurose do Ter. Esta neurose leva a pensamentos tormentosos, ansiedade, stress emocional, etc.

Eu compreendo que o amor, quando bate forte à nossa porta, nos fascina. É maravilhoso e queremos para sempre guardar aquele sentimento fabuloso. O dinheiro é uma forma de energia e traz vantagens que quem o possui pode imaginar. A fama, o poder, o prestígio nos faz sentir extremamente realizados e acabamos por esquecer que somos somente simples mortais. A questão é que quando a vida entende que temos que aprender alguma lição do seu curso avançado, não tendo edificado um castelo dentro de nós, nos sentiremos despojados de tudo que pensávamos ter ou que julgávamos ser.

Não significa que não nos devemos empenhar em ter uma vida plena. Não significa que não nos importamos com os nossos filhos. Não quer dizer que não gostamos da nossa companheira, que não nos importamos com ela. Muito pelo contrário. Só que é necessário mudar o paradigma conceptual. Há um grande medo de perder aquilo que na verdade não é nosso, ou ainda pior, desejar ter aquilo que já temos. Esta é o motivo da ansiedade, da angústia e do stress que apavora as pessoas e dá origem a um medo imobilizador. Por isso mantemo-nos na dita zona de conforto. Einstein disse uma vez: “A vida é como andar de bicicleta. Para ter equilíbrio tens de te manter em movimento…” E nos mantermos em movimento temos de sair constantemente da zona de conforto, ser desapegado, valorizar o Ser em vez do Ter. Primeiro forçamos um pouco esta forma de estar. Depois encarnamo-nos nela…

Uma forma excelente de iniciar o processo de desapego é alterando a sua própria rotina. Inovar, fazer coisas diferentes, começando pelo autoconhecimento. Há alguma coisa melhor do que fazer coisas que adoramos fazer? Passado um certo tempo perceberá que o desapego acalma a dor e a angústia. Passamos de preocupados a ocupados. Descobrirá que o desapego ajuda a construir as bases para se motivar na sua vida e agir em busca dos seus maiores sonhos. O medo deixará de ser um problema para se tornar numa ligeira sensação que nos impulsiona.

Anthony de Mello, padre e psicoterapeuta indiano do início do século XX, disse:

A base do sofrimento é o apego, o desejo. Enquanto desejas uma coisa compulsivamente e pões todas as tuas ânsias de felicidade nela, expões-te à desilusão de não a conseguir. O mal é que a maioria equipara a felicidade com conseguir o objecto do seu apego…

São palavras enormemente sábias e que nos expressam ainda com mais intensidade e clareza o que aqui é falado.

É necessário lembrar que a prática do desapego não vai tornar as pessoas frias mas sim proporcionará recursos para que sejam mais tranquilas e receptivas, capazes de observar as mudanças de uma forma mais compreensível.

Ser desapegado não significa ser alheado, descuidado, negligente ou desinteressado. Significa ter autoconfiança para viver sem estar dependente da constância de uma pessoa ou situação.

No fim de contas o que é o desapego? O desapego é soltar, deixar, libertar, viver no Agora, largando o peso do passado, deixando fluir, sem expectativas, sabendo que nada é nosso, nem as posses, nem as culpas, com a certeza da nossa finitude. Alan Watts, filósofo, orador e escritor britânico do século XX, numa das suas palestras dizia:

Nós existimos numa rocha de pedra que gira à volta de uma bola de fogo, que faz parte de um sistema solar menor, no extremo de todas as galáxias. Quão pequenos é que somos? Porque ainda pensamos que somos os donos do mundo…

O desapego é uma das raízes da felicidade…

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2 thoughts on “O Desapego – A Arte de ser Livre, Feliz e Pleno”

  1. Existe a possibilidade de alguém ser desapegado demais?
    Eu amo totalmente as pessoas que passam pela minha vida, mas nunca me apego, me doo totalmente até que chega o momento de seguir em frente.
    hoje comentando em um post que eu não guardei nenhuma das lindas bonecas que tinha quando criança, pois dava todas pras meninas da vizinhança, me deparei com a dúvida : é possível se ser desapegado demais?
    Minha sobrinha me chamou a atenção para o fato de que eu não sofri nem um pouco com o casamento e subsequente mudança da minha filha mais velha, que sempre foi minha melhor amiga. Eu respondi:- porque eu deveria sofrer se ela está feliz? por que ela teria que mofar debaixo do meu teto? Minha sobrinha ( que ja mora longe da mãe ha 4 anos) disse que a mãe dela sofre a ausência dela até hoje…
    resumindo : eu tenho “probleminhas”? rs…

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